Archive for April, 2006

A Censura

April 29, 2006

Mais ou menos uma semana antes do 25.04, num Sábado de manhã, estava a ver um programa infantil que passava, salvo erro, na SIC.

É um daqueles programas que tem um co-apresentador que é um boneco com uma voz irritante. Nesse programa, a páginas tantas, o apresentador humano pergunta aos meninos o que foi o 25.04.

Ninguém levanta o dedo. Timidamente, uma menina que deve andar pelos 4-5 anos, disse: "foi um dia em que uma senhora que vendia flores, resolveu colocar cravos nas espingardas dos soldados". Nem o Saramago faria melhor.

Vai daí e apresentaram uma peça de rua com a mesma pergunta. A maior parte dos inquiridos sabia. Mas havia uma excepção. Uma menina já crescida, para aí com uns 22 anos, com óculos de sol à moda e roupa saída da Bershka e cabelo com madeixas ( louras, obviamente) disse: sei lá, acho que foi a transição da república para a monarquia, ou da monarquia para a república, não foi?

Passada uma seman, neste Sábado soalheiro, com uma saudade imensa de Tavira, estive a ver um programa na 2 sobre o teatro. O programa foi gravado 18 anos depois do 25.04 e o apresentador queixava-se que, nessa altura, a memória falhava e muitas pessoas – leia-se, jovens –  não sabiam o que tinha representado a data.

O programa falava da censura no teatro e ouvi depoimentos extraordinários do João Lourenço e da Irene Cruz ( a eterna voz dos meus desenhos animados) sobre os mecanismos da censura, um dos pilares do regime de Salazar.

Pensei que a loura que não sabia o que tinha sido o 25.04 devia ser daquelas pessoas para quem haver ou não censura não fazia diferença. 

A não ser que vivesse no Afeganistão e fosse proibida de usar roupas da Bershka. 

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Dedução

April 28, 2006

A conversa fluia e falávamos de pais separados.

A Cat dizia que a M., mãe de um amigo, tinha ido para Londres com o namorado que não era o pai do amigo.

O Rato, colocou o seu ar de sábio e disse: "namorado não! Marido"

Porquê, perguntei eu.

Porque os crescidos são sempre maridos ou mulheres e não namorados, respondeu o meu filho.

Marido ou mulher são, segundo a opinião do meu filho, namorados que cresceram.

Terminei a conversa a fazer "problemas no pescoço" que são dos mimos que ele mais aprecia.

Por debaixo do palco

April 28, 2006

Onte, a convite do Nuno, fui ao lançamento da segunda edição do pisa-papéis.
Aconteceu no S. Luiz e entrei quando estava a decorrer o espectáculo ( Tricicle). Por essa razão, não pude seguir pela porta principal. Entrei pela porta lateral e dei uma volta enorme até chegar ao jardim de inverno, onde o lançamento ia ser feito.

De caminho, visitei as entranhas do teatro e passei mesmo por baixo do palco, em silêncio, e a ouvir o que se passava lá em cima.

O lançamento do Pisa foi um sucesso. Cheio de gente, com música do melhor que há.

Esta edição, para quem conheceu a 1ª, mostra que o projecto tem viabilidade e que a ideia tem futuro. Nomes como Serralves, Gulbenkian, Fundação Oriente, Camané, Janita, Mário Laginha, Maria João, Bernrdo Sasseti e outros, enriquecem esta edição.

Para o Pisa, desejo muitos anos de vida.

Parabéns ao Nuno, à Marta, aos Pedros, e a todos os outros que fizeram esta edição. 

26 de Abril de 2006

April 26, 2006

Gosto do 25 de Abril.

Não gosto dos discursos extremados. De um lado uma esquerda saudosista que não resiste e comemora a data como nostalgia. É uma esquerda que percebe que há muito mais para fazer do que o que já foi feito. Em vez de fazer, voltasse para trás e procura o tempo perdido.

Do outro, uma direita que não resiste a chamar retrógrada a uma constituição moderna e avançada que acabou de completar 30 anos.

Em comum, e com todo o respeito que me merecem, é uma geração que recusa assumir a incapacidade  de terminar aquilo que se inciou em 25.04.74. A culpa é sempre dos outros, como é usual quando se fala em responsabilidade, portuguese way.

Tudo isto tem que ver com o discurso do Presidente. Foi ele, sem cravo na lapela ( o que gerou uma acesa discussão que muito contribui para o desenvolvimento do país), que fez o discurso que mais apreciei.

Apesar de não ter votado no Cavaco e de fazer questão em comprar  cravos que enchem de cor a minha casa, não posso deixar de notar a lucidez e oportunidade do Presidente.

….26 anos mais cedo….

April 24, 2006

Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
Não me traz
Tua voz.

Em silêncio, amor
Em tristeza e fim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim
Partir é morrer
Como amar
É ganhar
E perder

Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer
Renasci

E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
Minha dor que aprendi
De novo vieste em flor
Te desfolhei…

E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos sós

"Daqui, Movimento das Forças Armadas……"

VIVA A LIBERDADE! 

…, de madrugada, vieram duas revoluções

April 24, 2006

24.04.00, por volta das 4 da manhã, nasceu o meu filho, aka, Rato.

Parabéns para ti.

Quero que continues, como é teu timbre, de bem com a vida.

Beijos

Infiltrados

April 19, 2006

Numa aberta de filmes para menores de 12 – já papei tudo o que há para ver – resolvi roubar a J. e ir ver o novo filme do Spike Lee.

Estava preparado para mais do mesmo, ainda que o mesmo seja um mais. O mesmo está lá, com uma subtileza inteligente, mas o filme é uma coisa nova, absolutamente brilhante.

Conta a história de um peculiar assalto a um banco na Wall Street.  Neste assalto os ladrões não roubam dinheiro.

Não conto mais porque estrago a graça do filme.

Denzel Washington brilhante, Clive Owen idem e uma Jodie Foster que me desiludiu. Tudo isto servido com a mestria do Spike Lee, coroado com uma notável interpretação do Christopher Plummer.

Aprende-se muito com o filme.

A América está lá todinha.

E a história dos poderosos também.

A ver, absolutamente.

Ar puro

April 19, 2006

Tropecei numa mina de ar puro.

O império brasileiro

April 19, 2006

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No início do século XIX, com Napoleão a conquistar a Europa, a corte portuguesa resolve fugir para o Brasil – fuga que se repete, uns anos mais tarde, já sem a corte e por razões diferentes.

Acabei de ler este livro, escrito por um australiano que viveuno Brasil e, como boa pessoa que é, apaixonou-se pela história de um regente ( D. João) casado com uma espanhola louca ( D. Carlota Joaquina) que transfere para o Rio de Janeiro o governo da nação.

É toda uma estrutura  do Estado absoluto – em final de festa – que se muda para o Brasil, literalmente, de armas e bagagens. Mobiliário, bibliotecas inteiras, arquivos, tesouros, padres, fidalgos, amantes, funcionários, e tudo o mais que se pode imaginar.

O livro é notável como documento. Os portugueses não ficam bem no retrato, como também não ficam os ingleses que, em troca da defesa da mãe-pátria, exploraram o comércio de e para o Brasil numa situação de exclusividade.

A figura do regente, apesar da alegada incapacidade de tomar decisões, é, na minha opinião, a mais simpática.

Com a morte da mãe, a rainha D. Maria, D. João torna-se o primeiro monarca europeu a ser empossado numa colónia.

A Portugal e aos Algarves é acrescentado o reino do Brasil. 

Os hábitos dos portugueses, a relação com os brasileiros, a revolta e as aspirações de independência quando a corte resolve voltar, 13 anos depois, a Portugal, são ilustradas como se um romance se tratasse.

Gostei muito e acho que nos faz falta ler mais livros como este.

É assim que se cativa o interesse pela nossa história.

Casos de Estado, negócios e tricas

April 19, 2006

Como disse o emissário de César, quando regressou a Roma vindo da Peninsula Ibérica, concretamente de um pequeno canto chamado Lusitanea, conheceu um povo que não se governa nem se deixa governar.

Uns anos mais tarde e parece que estamos na mesma. Será o Fado? Seremos nós, os portugueses, intrinsecamente medíocres?

Em parte somos. A outra parte deve-se à medíocre classe política que nos governa.

Vejamos dois exemplos:

No Parlamento, o órgão representativo por excelência, aqueles que são pagos para legislar faltaram a uma sessão plenária, impedindo que fossem votados diplomas legais. Foram de férias, gozar uma santa páscoa num qualquer spa do algarve, ou do Brasil, no caso dos mais afortunados.

Antes de partirem para as mini-férias, alguns deputados assinaram o livro de presença e foram tomar um café que durou 4 dias.

Vêm agora dizer que o Parlamente devia encerrar na semana santa. Há também quem defenda que não deve haver plenário em dias importantes, como por exemplo, quando o Benfica joga com o Barcelona.

Estes cidadãos eleitos, depois de umas férias bem passadas, são os mesmos que no Parlamento vêm defender que os juizes tem muitas férias, que os professores são uns baldas e que na função pública a bica tomada de manhã dura uma eternidade.

Meanwhile, no governo, o pobre e mal interpretado ministro da Justiça, anúncia que as cadeias de Lisboa, Coimbra e Grândola, situadas nos centros urbanos, vão para outro lugar. Para longe da cidade.

Faz-se uma permuta de terrenos, contrói-se uma mega urbanização na Marquês de Fronteira e, no final, verifica-se que o negócio da permuta foi ruinoso para o Estado. Não deu para construir a cadeia fora de Lx, nem para beneficiar o sistema prisional ou mesmo os tribunais.

Mas não faz mal. A Comissão de Inquérito nomeada para o efeito, encerra com conclusões do género " da próxima vez, o negócio deve ser cuidadosamente estudado a fim de evitar prejuízos para o erário público".

Cesár deve estar a dar voltas no túmulo.

Nós, ao contrário dos gauleses, não temos o Panoramix nem a poção mágica.