Mais ou menos uma semana antes do 25.04, num Sábado de manhã, estava a ver um programa infantil que passava, salvo erro, na SIC.
É um daqueles programas que tem um co-apresentador que é um boneco com uma voz irritante. Nesse programa, a páginas tantas, o apresentador humano pergunta aos meninos o que foi o 25.04.
Ninguém levanta o dedo. Timidamente, uma menina que deve andar pelos 4-5 anos, disse: "foi um dia em que uma senhora que vendia flores, resolveu colocar cravos nas espingardas dos soldados". Nem o Saramago faria melhor.
Vai daí e apresentaram uma peça de rua com a mesma pergunta. A maior parte dos inquiridos sabia. Mas havia uma excepção. Uma menina já crescida, para aí com uns 22 anos, com óculos de sol à moda e roupa saída da Bershka e cabelo com madeixas ( louras, obviamente) disse: sei lá, acho que foi a transição da república para a monarquia, ou da monarquia para a república, não foi?
Passada uma seman, neste Sábado soalheiro, com uma saudade imensa de Tavira, estive a ver um programa na 2 sobre o teatro. O programa foi gravado 18 anos depois do 25.04 e o apresentador queixava-se que, nessa altura, a memória falhava e muitas pessoas – leia-se, jovens - não sabiam o que tinha representado a data.
O programa falava da censura no teatro e ouvi depoimentos extraordinários do João Lourenço e da Irene Cruz ( a eterna voz dos meus desenhos animados) sobre os mecanismos da censura, um dos pilares do regime de Salazar.
Pensei que a loura que não sabia o que tinha sido o 25.04 devia ser daquelas pessoas para quem haver ou não censura não fazia diferença.
A não ser que vivesse no Afeganistão e fosse proibida de usar roupas da Bershka.
